Falar mal do carnaval é fácil. Como não reprovar um espetáculo de glândulas sudoríparas pulando em ritmo ditado por canções de temas primitivos nas quais comandos ginásticos como “levanta a mão” parecem exaurir a capacidade de reação intelectual dos participantes?
Mas o carnaval parece ter uma razão de ser transcendente à doideira e à sacanagem. Ao constituir uma exceção à estrutura de uma sociedade, esse resíduo pré-moderno oferece uma licença não revoltosa contra a ordem social. A manifestação generalizada dos desejos não-criminosos mais abjetos, situa, uma vez terminado o período de festividade, a vida novamente em perspectiva. É como nos colocarmos de pernas pro ar para que a posição dos pés e da cabeça fique mais evidente no momento em que recobramos a postura. E também para que percebamos que a desorientação generalizada de regras e valores é contrária ao modo de viver que consideramos desejável. Por mais que pareça divertido por alguns instantes, não conseguimos conduzir nossa vida de pernas pro ar.
Por meio de uma apostasia farsista, de uma suspensão periódica de valores, o carnaval enraíza na sociedade a regularidade normativa que permite à sociedade operar, satisfazendo, assim, aquilo que Charles Taylor chama de necessidade de antiestrutura. Daí o paradoxo do carnaval: apenas quem o condena pode entender o mérito de sua existência.