Arquivo do mês: fevereiro 2009

Para falar bem do carnaval

Falar mal do carnaval é fácil. Como não reprovar um espetáculo de glândulas sudoríparas pulando em ritmo ditado por canções de temas primitivos nas quais comandos ginásticos como “levanta a mão” parecem exaurir a capacidade de reação intelectual dos participantes?

Mas o carnaval parece ter uma razão de ser transcendente à doideira e à sacanagem. Ao constituir uma exceção à estrutura de uma sociedade, esse resíduo pré-moderno oferece uma licença não revoltosa contra a ordem social. A manifestação generalizada dos desejos não-criminosos mais abjetos, situa, uma vez terminado o período de festividade, a vida novamente em perspectiva. É como nos colocarmos de pernas pro ar para que a posição dos pés e da cabeça fique mais evidente no momento em que recobramos a postura. E também para que percebamos que a desorientação generalizada de regras e valores é contrária ao modo de viver que consideramos desejável. Por mais que pareça divertido por alguns instantes, não conseguimos conduzir nossa vida de pernas pro ar.

Por meio de uma apostasia farsista, de uma suspensão periódica de valores, o carnaval enraíza na sociedade a regularidade normativa que permite à sociedade operar, satisfazendo, assim, aquilo que Charles Taylor chama de necessidade de antiestrutura. Daí o paradoxo do carnaval: apenas quem o condena pode entender o mérito de sua existência.

Livros

Visitava a nova casa de um casal de amigos no fim de semana. Na biblioteca vi que todos os livros estariam exatamente numa mesma seção da Barnes & Noble. Sem dúvida, um casal unido pelo amor devoto a fantasia e ficção científica.

Com o tempo, a graça da geekness alheia diminuiu e fui percebendo como seria ter com meus livros esse tipo de afinidade. Olhar para minhas estantes seria como entrar na casa onde só morasse boa gente, de amizade sem fingimento, desde amantes até cachorrinhos mansos. Mesmo os livros mais ruinzinhos mereceriam aquela afeição que temos pelos amigos meio tolos e medíocres.

Mas não. Nas minhas estantes, essa camaradagem vem sempre cercada de tensão. Eu sei que lá dentro no meio de suas letrinhas serifadas alguns livros me odeiam, outros me desprezam. Entre livros que são mentores, mestres ou heróis, há outros facínoras e abominações. De alguns livros, mantenho as páginas embotadas. Vai que pula uma centelha de consciência, já resolvem logo cortar meus pulsos com o gume do papel. E ainda outros, como os neoateístas, tenho apenas em versão digital. As palavras secretam um ódio que não merece estar em posse da corporeidade física do papel. Os penetras, que ganhei de presente, condeno a serem ocasionalmente folheados por visitantes entediados.

Enfim, penso se não deveria ter uma convivência menos temperamental e cansativa com meus livros. Sei lá. Melhor terminar o post aqui para ir ver se não encontro uma resposta neles.

Lengalenga de legalismo científico

Pode ser coincidência, ou pode ser que ambas as fontes tenham se referido a uma terceira fonte, mas o parágrafo na matéria A Darwin o que é de Darwin da revista Veja dessa semana que discute a idéia de “que o darwinismo é apenas uma teoria, não um fato” está estranhamente parecido com a seção Evolution is just a theory, not a fact em verbete da Wikipedia.

 Veja:

Em seu significado comum, teoria é sinônimo de hipótese, de achismo. A teoria da evolução de Darwin usa o termo em sua conotação científica. Nesse caso, a teoria é uma síntese de um vasto campo de conhecimentos formado por hipóteses que foram testadas e comprovadas por leis e fatos científicos.

Wikipedia:

In colloquial speech a theory is a conjecture or guess… When evolution is used to describe a theory, it refers to an explanation for the diversity of species and their ancestry… As with any scientific theory, the modern synthesis is constantly debated, tested, and refined by scientists.

No que diferem, a explicação da wikipedia ainda está melhor do que a da Veja, porque uma teoria é debatida, testada e refinada, mas não “comprovada por leis e fatos científicos”. “Leis científicas” não são elementos do mundo alheios à teoria. São as teorias que elegem o termo “lei” a repetidas relações observadas de fenômenos. Ou seja, “lei” é um status alcançado por uma hipótese testada, não o método do teste.

Depois, a matéria ousa nos informar que “nosso conhecimento só começa três minutos depois do [big bang], quando as leis da física passaram a existir”. O que se pode dizer das leis da física é que elas manifestam relações cuja existência precede lógica e cronologicamente a ordem física. A estrutura dessas relações não pode ser criação do big bang, nem nosso conhecimento poderia dizer algo sobre o big bang se não especulássemos sobre o instante que precede sua explosão (se é que é possível falar em medidas de duração do tempo nessas condições iniciais).

Jornalistas não precisam ser especialistas no que escrevem, mas devem manter um padrão que não ridicularize a falta de especialização dos seus leitores.

Utilitarismo

Utilitarismo é a escola ética que diz que o bem não é objeto de estudo da ética.

Vamos a isso

Sem preparo e planejamento, que isso é prenúncio de frustração.