Por ocasião dos 200 anos de Darwin, escritores e blogueiros cristãos apresentaram recentemente suas impressões acerca do evolucionismo. A opinião geral é de um ceticismo moderado, sem considerar incompatível a evolução com a crença em Deus.
Por outro lado, seria o evolucionismo compatível com o naturalismo? Falta no debate a menção ao argumento construído pelo filósofo Alvin Plantinga em Warrant and Proper Function de que é irracional para um evolucionista a crença na natureza puramente quimíco-biológica de nossa mente.
A pergunta de Plantinga pode ser assim sumarizada: qual confiança devemos ter em nossas faculdades cognitivas se elas são produtos de uma série de mutações genéticas aleatórias? Plantinga conclui que, caso tomemos o naturalismo por assunção, há razões para se acreditar que a probabilidade de nosso conhecimento ser verdadeiro é baixo.
Apesar de empreendimentos científicos como a biologia evolucionária tomarem por premissa que nossas faculdades cognitivas nos fornecem a verdade, nosso conhecimento é invisível para a biologia evolucionária. O processo de alteração genética não se importa com a autenticidade da apreensão de nossos sentidos ou com o rigor de nossas deduções. Importa-se apenas com o nosso comportamento: o que fazemos com nosso corpo, depositário de nossa carga genética, para assegurar sua sobrevivência e reprodução. A evolução enxergaria apenas o nexo entre a subjetividade do nosso conhecimento e a objetividade do nosso comportamento em função de nossa adaptabilidade, estando cega para o conteúdo do nosso conhecimento subjetivo, e sua coerência com o mundo real.
Nasce daí a dúvida que Charles Darwin confessou em uma carta já nos seus últimos anos:
“Sempre surge a terrível dúvida se as convicções de uma mente humana, que se desenvolveu a partir da mente de animais inferiores, têm qualquer valor ou merecem qualquer confiança. Será que alguém daria confiança às convicções da mente de um macaco – se é que há convicções nessa mente?”
Plantinga reforça a dúvida de Darwin com hipóteses alternativas sobre a determinação de nosso comportamento que não estão relacionadas com a objetividade do que cremos e supomos conhecer. Pode ser até que nossas crenças nada alterem em nosso comportamento (como no cenário de Matrix). Também é possível que, mesmo havendo uma relação causal entre conhecimento e comportamento, o conhecimento não seja garantidamente real. Por exemplo, poderíamos evitar cair em um precipício porque acreditamos que vai nos custar a vida, ou porque acreditamos que a borda do precipício vai interromper nosso movimento, ou porque queremos nos jogar, mas acreditamos que ficar imóvel é a melhor maneira de nos jogar precipício adentro, ou porque acreditamos que não conseguimos simplesmente pular no fundo do precipício da mesma forma que não conseguimos simplesmente pular no topo de um prédio, etc.
A conclusão é que as possibilidades de crenças em função de um comportamento são virtualmente ilimitadas (e isso porque sequer incluímos elementos como a vontade, ou discutimos a flexibilidade do “progresso” adaptativo). Seria, portanto, pouco provável acreditar que um processo acidental produziu a congruência entre realidade e conhecimento na mente humana quando há inúmeras possibilidades de predispor nosso corpo a determinados comportamentos.
O teísta evita esse problema porque parte da certeza de que suas faculdades cognitivas correspondem à realidade. Se ele aceita a evolução biológica dos corpor, continua mantendo a crença na espiritualidade da mentes. Dessa forma, o naturalista acaba sendo derrotado pelo evolucionismo, e o legado de Darwin acaba servindo de argumento para a espiritualidade teística de Plantinga.
(Uma versão aberta do argumento de Plantinga pode ser lida no Google Books. A resposta de Plantinga aos seus críticos pode ser encontrada aqui).